Papo de Homem . 15 de outubro de 2017
Uma casa pra homens: o que pode brotar de um espaço voltado pro masculino?

Há uma escassez de espaços que estimulem a transformação positiva dos homens. Isso é ruim para todos e todas nós.

O que fazem homens que aspiram ser melhores pais, maridos, profissionais, amantes, amigos? Que desejam cultivar relações mais saudáveis, entender melhor suas emoções, sua sexualidade e levar uma vida mais satisfatória?

Há algum espaço para acolher sujeitos crescidos que possam ter mais dúvidas sobre a vida do que é esperado de um adulto confessar?

O usual é esses homens permanecerem em silêncio, isolados em seus anseios — escutamos mais de 20.000 pessoas para confirmar essa fala. Enquanto isso, recebem pressão crescente para serem mais sensíveis, humanos, equitativos, ao mesmo tempo em que é normal esperar que sigam fortes, viris, potentes e capazes de alcançar sucesso na carreira.

Essa sinuca está levando o gênero masculino a situações bem difíceis de lidar, como mostramos nesse vídeo:

Link Vimeo | O que está acontecendo com os homens?

E considero praticamente impossível lidarmos com essas questões sem espaços dedicados à transformação dos homens. Sim, boa parte do mundo foi construída por e para homens, eles lideram a maioria das corporações e cargos políticos. Mas se desejamos que isso mude, será necessário criarmos outros meios para que isso aconteça. De nada nos servem todos os inúmeros locais que apenas reforçam os problemas dos homens.

Para ilustrar de onde vem minha motivação, compartilho algumas das histórias que escutei ao longo de 2017, conduzindo ou participando de pelo menos vinte e cinco encontros nos quais o masculino foi tema. Os nomes e alguns detalhes foram trocados para preservar o anonimato dos envolvidos.

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Felipe é separado, pai de duas meninas. O divórcio foi turbulento. Ele faz seu melhor pelas filhas. Com lágrimas nos olhos, mostra mensagens de whatsapp com a esposa dizendo, “você é um ex-marido de merda e um pai de merda”. Ele pergunta: “quando recebo essas mensagens, isso acaba comigo. O que faço?”

Pedro adorava desenhar quando criança. Era considerado um talento entre os coleguinhas de sala. Um dia pediu à mãe pra frequentar uma escola de artes. “Isso não é coisa de viado?”, questionou o pai. Pedro nunca mais desenhou.

Roberto, diretor de uma empresa de construção, me puxa de canto pra falar: “Há mais de 30 anos eu comando pessoas. Quando chego em casa, tento me comunicar de modo mais carinhoso, mas não consigo. Minha esposa e filhos reclamam que sentem medo de mim e que sou muito duro. Quero mudar, mas não tenho ideia como fazer isso.”

Quando jovem, Almeida trabalhou como vendedor em uma loja. Durante um atendimento, um homem gay se aproximou e tocou em seu braço de um jeito que lhe pareceu uma tentativa de sedução. Almeida teve um acesso de raiva, precisou se esconder nos fundos da loja e passar o atendimento (e a comissão) para outra pessoa.

Luiz faz a seguinte pergunta, em uma roda de mulheres e homens: “Sou um homem branco, de classe média alta, privilegiado. Mas sinto que às vezes não há espaço sequer pra eu fazer perguntas ou falar algo sem ser criticado ou alguém me mandar calar a boca. Não sei nem como perguntar, mas como lido com isso?”

Carlos conta de um episódio antigo, na adolescência, quando convidou seu amigo para passar o Natal com ele na Argentina, onde boa parte de sua família morava. Ao chegar lá, o amigo foi recebido pelo homem da casa com um abraço e um beijo na bochecha. Ficou chocado, “como assim outro homem me beijou? Ele nem me conhece!”.

Jorge lidera o setor de RH em sua organização. Está com um problema ligado a vestuário. Uma funcionária usa um decote que chama bastante atenção. Primeiro, outras mulheres vieram reclamar, dizendo que não era apropriado pro ambiente. Depois, homens vieram dizer que estavam se distraindo muito. Jorge, com toda sua experiência, está confuso sobre como gerenciar a situação.

Matheus, dezenove anos, está apaixonado. Quer morar junto com a namorada, entrar na faculdade, conseguir um bom emprego. Mas sente que está sempre muito ansioso e acaba se sabotando. Não conta isso pra nenhum amigo. Me pediu ajuda sincera: “como posso mudar?”

Nicomédio é motorista de aplicativos. Trabalha dez ou doze horas por dia, de segunda a segunda. Foi criado por um pai violento, apanhava de tomar porrada. Hoje ele chora ao falar que queria passar mais tempo com a família, mas não consegue botar pão na mesa se fizer isso.

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Todos os casos envolvem nossas crenças sobre o que é ser homem e as vivências cada vez mais amplas das masculinidades em nosso tempo. E são quase diários os emails que recebemos com dúvidas similares.

Como Robert Garfield bem coloca em seu livro “Breaking the Male Code“, “somos uma sociedade que não sabe mais qual lugar os homens devem ocupar”. Por isso faria sentido uma casa que impulsione essa transformação.


Mas como poderiam funcionar essas casas dedicadas ao masculino, na prática?

Pra começo de conversa, todos seriam bem-vindos, independente de orientação sexual, raça, religião ou qualquer outra característica. Pense em um espaço para se encontrarem, articularem suas dúvidas e receios mais bobos e também os mais profundos, sem o medo de serem julgados por isso.

Um local no qual possam quebrar o silêncio e construir uma comunidade benéfica, por meio de encontros regulares. Haveria atividades envolvendo homens e mulheres, mas também algumas somente para eles.

Por trás, uma visão de gênero relacional, que acredita na construção de pontes entre o masculino e o feminino — partindo da compreensão que os movimentos de um afetam o outro, sempre.

É complicado ser melhor pai ou um líder mais equitativo se você não tem referenciais saudáveis. Em nossa casa, haveria troca constante de relatos detalhados sobre as experiências de cada um.

Seria um local prazeroso de se estar, no qual profundidade e diversão se misturam. A programação poderia ter convidados de áreas como trabalho, dinheiro, sexualidade, estilo, alimentação, esportes, saúde, paternidade, espiritualidade, viagens, aventuras, amor, morte.

Haveria uma biblioteca rica em livros, pesquisas originais e revistas recentes sobre masculinidades, de todas as partes do globo. Um pesquisador residente cuidaria de fazer circular esse conhecimento a todos os membros da comunidade.

Teríamos um espaço para prática esportiva e uma área externa para celebrações e festividades, além de cadeiras confortáveis e salas silenciosas para leitura. No terraço, um dojo para artes marciais, yoga e meditação.

O espaço poderia ser sustentado por doações regulares dos frequentadores ou por mecenas dispostos a investir na transformação positiva do masculino.

Seria um daqueles lugares dos quais você sai já pensando quando volta.


E o que essa casa não seria?

Não seria mais um espaço pra homens fazerem a barba, beber cerveja, jogar videogame, discutir futebol, assistir UFC e só. Veja, gosto de todas essas coisas, apesar de ser um perna de pau em quadra.

O ponto é que já existem inúmeros locais assim. Entretanto, ainda não há onde homens possam ir para relaxar sem álcool, se divertir sem games, se conectar sem precisar das mesmas piadas de sempre e, principalmente, abrir seus obstáculos sem medo e poderem se ajudar a construir vidas melhores.

É possível irmos além da cultura do entretenimento. Estamos carentes de conexões reais e projetos que nos auxiliem a fazer o trabalho sujo da transformação — que não acontece só com diálogos bonitos, imersões de tirar o fôlego, palestras do TED ou livros inspiradores.

Teoria não basta. É necessário colocar a mão na massa, comunidade e paciência para sustentar esse processo por um longo tempo.

Confio que uma casa como essa teria fila de espera na entrada. De homens e mulheres.